| João
Pedro Vicente
Madrugada de sábado. Mais de 50 pessoas esperam
na fila para entrar em uma boate, cujo interior já
é ocupado por outras seis centenas. Flávia,
psiquiatra que não revela a idade – mas
aparenta pouco mais de 30 anos – é uma
das que esperam pela entrada, visivelmente ansiosa e
cheia de perguntas. Ela é heterossexual, e pela
primeira vez visita um ambiente especializado GLS (gays,
lésbicas e simpatizantes), acompanhada por uma
colega de profissão. “Interessei-me em
conhecer esta boate devido à minha profissão,
mas também por recomendações de
amigos”, diz, antes de expressar sua curiosidade
numa série de perguntas a respeito do ambiente
e da música. Na medida em que se desloca na fila,
as impressões da psiquiatra se desprendem. “É
a primeira vez que vejo dois homens abraçados,
e são todos muito bonitos. Como dizem na minha
profissão, homossexuais são, em geral,
muito caprichosos e perfeccionistas, o que se reflete
na aparência de muitos aqui”, ela completa.
“Além de organizadas, as boates GLS são
muito limpas. A música é moderna e atualizada
e os freqüentadores são muito educados”,
afirma Talita, universitária de 20 anos. Ela
é visitante ocasional destes ambientes, junto
com o namorado, Francesco, 21, vendedor. “Há
um pensamento machista, uma preocupação
em relação a possíveis assédios,
mas nunca tive problema algum em boates gays, assim
como nunca presenciei nenhum fato constrangedor envolvendo
outros”, diz o rapaz.
A noite ribeirão-pretana oferece duas boates
GLS, funcionando ambas nas noites de sexta-feira e sábado.
Há também um bar especializado, com banda,
boate interna, ambiente loungue e mesa de sinuca às
quintas-feiras e domingos. Durante todos os dias da
semana, um restaurante de comida mexicana serve de ponto
de encontro para os públicos homossexual e simpatizante,
apesar de não ser oficialmente especializado.
“Trata-se de um bar de público selecionado
que acabou tornando-se GLS nas entrelinhas, como todo
ambiente de preços mais elevados. Não
há música e não é permitida
a entrada de drag queens ou travestis. É um lugar
muito discreto, servindo muito como ponto de encontro
anterior à ida a boates”, explica o freqüentador
Alexandre Alves, 21, universitário. “Beijos
não são muito comuns neste bar, mas quando
ocorrem não atraem olhares indiscretos”,
Alexandre complementa.
As boates por sua vez, apesar de concorrentes nos horários,
têm públicos distintos. Uma delas permite
a entrada de travestis e drag queens. A outra, através
de cartaz exposto no próprio hall de entrada
“reserva-se o direito de selecionar seu público”.
As casas também têm uma diferença
de preço de 100%. “O preço das bebidas
num destes estabelecimentos é bem mais caro que
no outro, o que reflete a seleção de público”,
teoriza Alexandre. Em ambas não há estacionamento
pago; entretanto, naquela onde a entrada é mais
cara, há a presença de “guardadores
de carros”, que cobram em torno de R$ 3 ao fim
da noite. “São estilos diferentes de diversão,
quem freqüenta a boate mais popular não
a troca pela outra”, é a afirmação
de Tiago, 19, freqüentador exclusivo da boate à
qual se refere. “A segurança, a estrutura,
a música e o público selecionado compensam
o preço maior”, coloca por sua vez Daniel,
21, morador da cidade de Franca, cliente do estabelecimento
concorrente ao que Tiago freqüenta.
Em comum entre as duas boates, além das pistas
de dança e os ambientes loungue, estão
os go-go boys e darkrooms. O primeiro termo refere-se
aos dançarinos de corpos definidos que dançam
de sunga sobre plataformas elevadas; termo desconhecido
para a psiquiatra Flávia, acompanhada no início
da reportagem. Assim como os darkrooms, salas totalmente
escuras e fechadas no interior das boates, onde acompanhado
ou sozinho o freqüentador pode entrar, geralmente
à procura de experiências sexuais ou maior
intimidade com o companheiro ou companheira. “Não
se vê com melhores olhos quem entra no darkroom,
mas também não chega a haver preconceito.
É um hábito ousado”, afirma Gabriela
Ribeiro Neves, 22, entre sorrisos, ao tocar no assunto.
Hugo tem 27 anos e mora em Franca. É apenas um
entre muitos dos visitantes semanais que Ribeirão
Preto recebe em boates gays, vindos de toda a região,
e também da capital. “É um pólo
nesta forma de entretenimento. Estas boates e bares
têm qualidade e formam um bom ponto de encontro”,
afirma ele, que freqüentemente migra durantes os
finais de semana com alguns amigos francanos. “Um
lugar onde as pessoas são livres pra viver suas
sexualidades sem pressões. Há mauricinhos,
barbies (termo designado para rapazes musculosos, que
geralmente dançam sem camisa nas pistas), afeminados,
lésbicas, enfim, grupos distintos que geralmente
não se freqüentam na sociedade, mas que
neste interior coabitam harmonicamente”, Hugo
finaliza.
“As mulheres são minoria, talvez 10% do
público, e os rapazes heterossexuais vêm
geralmente acompanhados por uma namorada. Compõem
a maioria então, homens interessados em homens,
mas todos bastante respeitadores em relação
aos simpatizantes”, analisa Gabriela, adepta de
tais ambientes há quatro anos na cidade.
Nem todas as pessoas, entretanto, têm coragem
de freqüentar abertamente tais boates e bares.
“Sinto vontade, mas ainda não me considero
pronto”, afirma Guilherme, dentista de 23 anos.
“São as melhores músicas, os ambientes
mais modernos, como nas raves, que também são
bastante freqüentadas pelo público homossexual”,
justifica o professor Ricardo, de 32 anos, heterossexual,
quando perguntado a respeito da sua preferência
pelo ambiente GLS. Já nas palavras de um freqüentador
homossexual, Leonardo, 23, “além da qualidade
da balada, a liberdade de expressão afetiva faz
toda a diferença; dois aspectos que não
se encontram normalmente em boates heterossexuais”.
* Por uma questão de privacidade os nomes do
casal de namorados simpatizantes (heterossexuais simpáticos
a ambientes especializados gays) foram omitidos durante
esta reportagem, assim como de alguns outros entrevistados.
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