| Maurício
Abravanel
Ela entrou na farmácia.
Um lugar um pouco estranho para se levar uma cantada,
mas, antes que ela pudesse pedir algo, ele a abordou:
- Oi, você vem sempre aqui?
- Tenho cara de drogada?
- Eu quis dizer, sei lá, se costuma comprar remédios
aqui...?
- Só quando você não vem. É
que hoje errei de dia.
- Nossa, moça difícil!
- Difícil não, inteligente!
- Está sozinha?
- Considerando que você não é ninguém,
sim.
- Também não precisa me desprezar!
- Se eu pensasse em você, talvez o desprezaria.
- Mas eu acho que conheço você de algum
lugar...
- Quem sabe? Não é da clínica onde
trabalho?
- Ah, pode ser! Qual é o nome da clínica?
- Clínica Rambo, contra impotência.
- Entendi. Não tá afim, né?
- Depende, se for pra lhe dar uma bolacha, até
tô!
- Violenta, hein?
- Muito.
- Adoro mulheres violentas...!
- Por isso que tem o rosto deformado?
- Pegou pesado, hein?! É casada, tem namorado?
- Sou lésbica.
- Mentira, tá dizendo isso pra que eu vá
embora.
- Pode ser.
- Quer conhecer meu apartamento?
- Não.
- Têm tudo. DVD, CD...
- E, contando com você, FDP!
- Calma, não fique nervosa!
- Só se você der o fora.
- Tudo bem, desisto.
Ela ficou parada, olhando ele ir embora. Depois, virou
para o farmacêutico e, finalmente, fez seu pedido:
- Boa-noite. Tem absorvente?
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