Publicação Bimestral do Curso de Jornalismo do Centro Universitário Barão de Mauá

GERAL

Cinema: decupagem clássica vs Dogma 95

Os samurais invadem Ribeirão

Começar de novo

Um estresse chamado TCC

As novas tendências para se relacionar

A música que vem do lixo

Guardadores de carro causam polêmica

Ribeirão recebe dinheiro para combater enchentes

Novos projetos movimentam a agência-escola ELO

Morte do Papa

À espera da primeira chance

A popularização da cirurgia plástica

Carnabeirão

Paulistas gastam R$132 milhões por mês com cigarros

Planejamento: o segredo do sucesso empresarial

Ribeirão tem 14 casos de coqueluche

Mercado informal cresce e pode causar prejuízo

As mulheres invadem o mundo dos automóveis

Cursos de pós-graduação

Skate mobiliza jovens em Ribeirão

Superpopulação de pombos

Uma homenagem aos fãs do Capital Inicial

Celular vira moeda

Humanizar ambientes melhora o dia-a-dia nas empresas

Ribeirão estará nas telas dos cinemas

Combustíveis na mira da fiscalização

Crônica: Coisas de mulher

Teste de HIV: como, onde e porque fazê-lo

Crônica: Um dia daqueles

EDITORIAL E ARTIGOS

Os novos rumos da educação superior

A formação científica na escola

Assim comunica a humanidade

O Brasil precisa esta reforma

Expediente

Errata da versão impressa

Cinema: Decupagem Clássica x Dogma 95

 Milton Pimentel Martins

Tudo foi preparado para uma grande celebração. O cenário perfeito, um casarão onde a família se instalou e supostamente viveu feliz os anos em que permaneceu unida. Mais do que uma simples moradia, a mansão proveu o sustento da prole, foi o local onde o patriarca desenvolveu suas atividades profissionais; um belo hotel fincado numa paisagem bucólica da Dinamarca.
O tempo cronológico no qual a ação transcorre, mostra os três filhos já adultos e independentes reencontrando-se para a comemoração do aniversário de 60 anos de seu pai. Os amigos mais chegados ajudam a compor a grande mesa que servirá de palco para os acontecimentos.
O primogênito, o protagonista, desde o início, em função de seu comportamento taciturno, faz supor que algo não vai bem, que aquele clima de alegria que parece imperar não resistirá incólume por muito tempo. Essa primeira impressão logo se confirma: quando todos os convidados já estão bebericando e ceando, escuta-se um tilintar de um garfo se chocando com uma taça de cristal. Todos voltam sua atenção para o responsável pelo referido ruído. Aquilo que parecia ser um tradicional discurso de um filho arrolando e engrandecendo as qualidades da figura paterna, é, na verdade, a primeira de uma série de revelações bombásticas acerca de molestações sexuais praticadas por seu progenitor cujas vítimas foram o próprio autor das acusações e sua irmã gêmea que se suicidara há pouco. A partir de então se dá vazão a um inexorável processo de corrosão sobre a imagem de polidez quase sacra que vem à mente quando o assunto é a Família.
As linhas acima resumem – de forma bem rudimentar, é verdade – a trama do filme “Festa de Família ( Festen – Dinamarca 1998)” de Thomas Vinterberg, filme realizado sob os ditames do movimento intitulado Dogma 95.
Meados da década de 50. Uma brutal chacina num bar de Los Angeles coloca a polícia da cidade sob pressão. Três policiais, com diferentes personalidades, métodos e motivações saem à caça dos criminosos. Após uma curta investigação, a culpa recai sobre os suspeitos de praxe, no caso um grupo de jovens negros que por sua vez mal chegam a ser condenados. Antes que fossem a julgamento, em uma troca de tiros com policiais, levam a pior e acabam no cemitério.
A resolução do caso traz dividendos para os “heróis”. O policial Ed. Exley ganha uma promoção, se tornando o mais jovem “tira” a receber a patente de “tenente” e o policial Jack Vincennes livra-se da recente punição a que teve de se submeter. No entanto, alguns desdobramentos subseqüentes os obrigam a retomarem as investigações. Descobrem que os verdadeiros culpados são quadros proeminentes do próprio esquadrão em conluio com traficantes, cafetões e até com a imprensa sensacionalista.
O filme desnuda os bastidores da polícia, mostra os contrastes entre a versão oficial que se veicula na mídia e os fatos tal qual sucederam.
Esta segunda “sinopse” – também simplificada – tenta retratar o intrincado enredo da película “Los Angeles Cidade Proibida (L.A. Confidential - EUA 1997) de Curtis Hanson, um policial noir inspirado no livro homônimo de James Ellroy.
A exemplo do que ocorre com “Festa de Família”, “Los Angeles Cidade Proibida” também se esforça em desmistificar uma instituição que faz parte dos pilares da nossa civilização – entendendo o termo “polícia” como a instância dentro do contrato social dotada de poder coercitivo para fazê-lo valer.
Pode-se afirmar, sem medo de se cometer alguma “heresia”, que é lícito observar ao menos um ponto de convergência entre as duas produções: os conflitos, em ambas, concorrem para um desenlace que abala, ou na pior das hipóteses, provoca no público – até pela acidez com que são conduzidos - uma atitude de reflexão sobre o valor de tais instituições.
O escopo do presente exercício, entretanto, não é centrar o foco no conjunto diegético e sim nos códigos de linguagem que caracterizam cada um dos dois filmes que servirão de objeto, no tipo de enunciação escolhida por seus respectivos realizadores para transformar em imagem o texto que tinham nas mãos, no como a alteridade de concepções de cinema pode engendrar resultados tão diversos. Com efeito, a “possível” similitude temática pode se converter sim, num fator ilustrativo interessante para sublinhar estas diferenças entre as duas “estéticas” na medida em que estarão elas em cotejo.
Não obstante o trabalho em tela se aventure em estabelecer comparações, em momento algum se emitirá juízo de valor que conote superioridade de um material em relação ao outro. Elogiar-se-á as soluções levando-se em conta os horizontes de cada proposta.
Festa de Família

O Manifesto Dogma 95 institui uma série de “mandamentos” nos quais, para banir tudo o que é artificial e simplificar o processo de construção de um filme, o cineasta signatário deveria se escorar obrigatoriamente abdicando de todos os recursos – principalmente técnicos, malgrado no “Voto de Castidade” sejam elencados dois que repercutem diretamente na temática (proibição de ação superficial e de alienação temporal e gráfica) – que afrontem as premissas às quais se comprometeu em honrar.
As limitações impostas pelo Movimento suscitam uma série de desafios aos diretores: filmagens somente em locações, som direto, sem iluminação especial e sem uso de filtros e lentes. Como equacionar, como conceber uma dinâmica de filmagem e uma decupagem que permita auferir um material satisfatório sem se desviar de todas estas regras? Obviamente as soluções encontradas resvalarão na própria linguagem cinematográfica. Uma conclusão que parece lógica é a de que os resultados diferirão em muito, por exemplo, daqueles do cinema dito clássico. No entanto, a análise de “Festa de Família” um “espécime” aclamado constituído segundo os estatutos do “Dogma” não propicia uma ruptura radical com o “léxico” cinematográfico convencional. As limitações técnicas foram superadas por artifícios criativos, o filme no seu conjunto é bastante peculiar se comparado com outro de temática análoga produzido em Hollywood. As peculiaridades que forjam a película e das quais decorrem suas feições estão, contudo, salpicadas de “intromissões” dos códigos comuns ao cinema comercial.
Logo no início, Thomas Vinterberg imprime um ritmo alucinante comum aos filmes de ação. A câmera em plano fechado acompanha os deslocamentos de carros e dos personagens. São chicotes verticais e horizontais e cortes secos, muitos dos quais interligando planos curtos, sendo nuns observados as leis de raccord e noutros, não. O diretor lança mão deste estratagema nos momentos tensos, em que os corpos dos atores estão em movimento. É interessante notar que na grande maioria das vezes que o personagem Michael – irmão explosivo do protagonista que invariavelmente reage intempestivamente – entra em cena com participação importante na ação que se desenrola, a câmera, em contrapartida, acelera. Seria uma imbricação tema/forma? Seria a câmera “nervosa” o melhor recurso lingüístico para traduzir um dado que pertence aos domínios da diegese?
O filme, como já se salientou, é pródigo em exemplos que remetem ao “vernáculo” do cinema de estúdio. O significativo para a presente análise, porém, são os aspectos contidos ao longo do filme que dão conta de viabilizar, do ponto de vista procedimental, prático, o ideário da proposta estética alcunhada “Dogma”.
Em uma hora e quarenta minutos de projeção, não há indício sequer de um ruído incorporado na pós-produção. Tudo o que se escuta foi captado concomitante às imagens. Igualmente, nada parece ter sido suprimido. Num excerto logo no começo, quando da chegada quase simultânea dos convidados, em que todos estão se cumprimentando, em função do solo ser de pedrisco, os ruídos dos passos dos personagens se tornam perceptíveis. Com um pouco de atenção distingue-se o som dos passos do operador da câmera.
Existem músicas no filme, mas elas configuram-se como elementos necessários à encenação. Numa das passagens um dos presentes à festa é instado a tocar piano e, noutra passagem já próxima do fim do filme, uma senhora idosa, a mãe do aniversariante alvo das acusações de abuso sexual, entoa uma cantiga ingênua, provavelmente de apelo popular no país. São seqüências carregadas de enorme carga dramática. As duas intervenções musicais sucedem as anticlimáticas revelações de Christen, e são solicitadas pelo anfitrião ultrajado numa tentativa desesperada de amenizar a atmosfera de mal-estar. Alternam-se cenas do protagonista sendo arrancado do recinto, com o som original destas imagens, com as cenas musicadas. O efeito é diametralmente oposto ao desejado pelo “vilão”. Outrossim, ocorre uma potencialização do constrangimento, nem tanto nos outros personagens, muito mais no espectador. Impressionante!
A utilização da luz também é digna de nota. A obrigatoriedade em prescindir de iluminação profissional faz com que muitas cenas apresentem granulação, fenômeno típico de captação de imagens com equipamento digital. No caso, sabe-se que uma das determinações veladas do “Dogma” é a de se filmar com câmeras digitais. Depois se promove a cinescopagem convertendo o coletado para 35mm acadêmico.
Conforme o filme avança a granulação aumenta, pois a principal fonte de luz empregada, o sol, dura algumas horas. A deterioração progressiva da imagem indica verossimilhança cronológica entre o tempo real e o tempo no filme. O filme acompanha, seja pela fotografia ou pelos desdobramentos da narrativa, o consumir das horas do dia.
A constatação da correspondência temporal não encerra as possibilidades que a decrepitude da imagem carrega no seu bojo. Ela pode ser tomada como uma espécie de metáfora para o desmoronamento da máscara de felicidade que turva a visão impedindo-nos de conhecer os terríveis segredos protegidos por sua textura de aparente solidez. Na medida em que as denúncias de Christen se acumulam, proporcionalmente, nota-se o comprometimento da nitidez das imagens. O clímax se dá quando já é noite. A visibilidade é mínima. Não se vê mais do que silhuetas borradas. A falência do conceito de família feliz, que os pais do protagonista tentaram vender no começo da película e salvar ao longo dela, está, a essa altura, irreversivelmente consumada. Amanhece o dia, todos estão reunidos novamente à mesa para o café da manhã, iluminados com a delicada luz oriunda das janelas, ouve-se ruído de talheres. A imagem agora é bem definida, límpida, até bonita. A sensação que fica é a de alívio, é a de que o veneno que impregnava as almas dos personagens fora expurgado.
Depreende-se, sob inspiração do que foi aduzido, que a iluminação, ou a falta dela, converteu-se em expressivo instrumento de linguagem, fator este que propiciou ao autor concretizar seus intentos.
A decupagem e a montagem também cingem de força o conjunto. A câmera na mão, o uso de “chicotes” e o predomínio de planos curtos interrompidos por cortes secos emprestam agilidade ao filme. Normalmente, temáticas pesadas como a de Festa de Família castigam o espectador, pois os realizadores costumam optar por narrações morosas que fazem o drama retratado ainda mais indigesto. Inversamente, no caso em questão, tudo parece fluir rápido, em nenhum momento a aridez do enredo atravanca a eloqüência do ritmo.
O quesito ora enfocado possui vários pontos dignos de nota, mas um deles se destaca entre todos. Nele, Vinterberg, ao mesmo tempo em que dribla uma das delimitações impostas pelo Dogma – a da proibição da alienação temporal e gráfica – encaixa, com sucesso, um clima de suspense. Senão vejamos: a seqüência se inicia com a personagem Helene, acompanhada de um funcionário do hotel, no quarto que pertencera a sua irmã que se suicidara. Ela percebe que o banheiro está cheio de marcações, iguais as que a irmã fazia quando brincavam de “tá quente, tá frio”. Inicia uma busca pelo recinto, intuindo que antes de dar fim à própria vida, a irmã deixara-lhe algo. A cena contígua, mostra a camareira, uma antiga namorada de Christen no quarto em companhia do mesmo. Ela se queixa da vida e vai tomar banho. Em seguida entra a cena de Michel brigando com a esposa. Novamente a ação volta a Helene, que dá prosseguimento a sua investigação. Ocorre o corte para a camareira submergindo na banheira e lá permanecendo, como se pretendesse se afogar. Pula-se para a cena de Michael com a mulher, que agora fazem sexo de forma ávida. A velocidade com que o ciclo de cenas se conclui e é retomado aumenta a cada volta completa. Quando Helene termina de ler a carta objeto da sua busca, subitamente projeta-se na direção do funcionário que a acompanha num típico movimento corporal de quem quer aplicar um susto. Segue-se imediatamente um plano exíguo no qual a camareira emerge e outro plano curto de Michel escorregando na banheira.
Com este estratagema, o diretor resgata para o público o suicídio que é recorrente na trama, importante para o seu contexto geral, sem apelar para o vedado flashback além de causar, no mínimo, expectativa no público à guisa dos filmes de terror.
O esquadrinhamento de “Festa de Família” conota serem as pretensões dos idealizadores do Movimento muito mais voltadas à obtenção de um maior realismo, de um efeito que simule mais perfeitamente a “verdade” que as imagens podem oferecer. A extirpação do que os fundadores taxaram de artificial afeta a transparência dos códigos lingüísticos consagrados pelo cinema comercial, mas alguns dos seus fundamentos continuam presentes. Qualificar as experiências conduzidas à luz dos preceitos do “Dogma”, de nova estética, é, na melhor das hipóteses, arriscado.
Noel Burch não deixaria esse “hibridismo” passar despercebido. Após assistir o filme aqui estudado, com o dedo em riste trêmulo apontando para a tela, diria: “Eis um típico exemplo de dialética. A conjugação de fatores próprios à linguagem conservadora com outros que lhe são avessos, abrindo novas perspectivas para o cinema”.
Los Angeles Cidade Proibida

Por seu turno “Los Angeles Cidade Proibida” não apresenta qualquer inovação lingüística que autorize sua inclusão em movimentos de vanguarda. Todo repertório do tradicional cinema de estúdio já sistematizado numa fórmula que não disponibiliza grande margem de criação para o diretor, é passível de reconhecimento nas mais de duas horas de projeção: planos, contra-planos, enquadramentos de todos os tamanhos, panorâmicas, travellings, raccords de eixo, direção e olhar, elipses homogêneas; luz, sonoplastia, efeitos especiais perfeitos, enfim tudo aquilo que torna a enunciação invisível.
Embora pareça, o parágrafo anterior não possui qualquer conotação pejorativa. Objetivamente, estas são as características que saltam aos olhos quando o observador se concentra em identificar os códigos que tornam inteligíveis a profusão de imagens que correm na tela. É bem verdade que existem usos e usos da linguagem clássica. Curtis Hanson, indubitavelmente, explorou-a com maestria.
A discussão que se faz pertinente diz respeito às relações desproporcionais entre narração e narrativa presenciadas em filmes confeccionados em Hollywood. Na medida em que a prioridade é contar uma história, naturalmente se buscará verossimilhança máxima em cenários e figurinos e isso implica em “manipulações” de toda ordem para garanti-la. O realismo se transfigura em hiper realismo. A iluminação, os sons e movimentos de câmera, para tornar mais crível o enunciado, precisam ser dissimulados o quanto for possível – em oposição ao “Dogma” que busca a verdade pela eliminação destes meios que falsificam o real. A transparência dos códigos redunda da primazia da trama sobre qualquer outra dimensão do processo.
Faria-se muito mais justiça ao grande filme Los Angeles Cidade Proibida se o objeto posto em debate fosse o conteúdo e não a forma.
Após discorrer tão longamente sobre o tema é razoável ponderar que o aparente cerceamento técnico aos quais os subscritores do Dogma estão obrigados a se submeter, mais liberta do que limita. Uma vez aceito o desafio de proceder segundo essa vertente, o empreendedor dificilmente logrará êxito lançando mão das soluções via de regra “pré-fabricadas” do cinema convencional só cabíveis dentro da lógica do mesmo. Terá de por a cabeça para funcionar, de verdade.

 

 

Milton Pimentel Martins é professor do Centro Universitário Barão de Mauá, graduado em Direito e Comunicação Social pela Universidade Metodista de Piracicaba (UNIMEP), especialista em História e Cultura e mestre em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP).