| José
Olávio e Giovanna Siqueira
Ao andar pelos corredores de uma das unidades do Centro
Universitário Barão de Mauá, nota-se
que o perfil do aluno mudou. A faculdade está
deixando de ser um espaço exclusivo dos jovens.
É cada vez mais comum encontrar homens e mulheres
com idade acima dos quarenta anos.
O ingresso tardio em sala de aula é uma tendência
nacional, segundo dados da Comperve (Comissão
Permanente do Vestibular), que pesquisa o perfil do
estudante nas faculdades públicas do país.
Hoje existem casos de classes com média de três
a quatro alunos que se parecem mais com os professores
do que com seus colegas de turma.
Essa convergência não é verificada
só na rede pública. Na instituição
particular, o número é ainda maior. Na
Barão de Mauá, o número de alunos
chamados “quarentões”, nos cursos
seqüênciais de dois anos e também
nos de graduação, vem crescendo ano a
ano.
Os motivos que levam uma pessoa retomar os estudos nascem
muitas vezes da necessidade de aperfeiçoamento
profissional, pois a cada dia as empresas exigem maior
conhecimento de seus funcionários. Já,
outros, buscam reciclagem ou são atraídos
simplesmente pelo prazer de voltar à sala de
aula.
Um outro aspecto dessa realidade refere-se ao convívio
entre alunos de diferentes gerações. A
estudante Vivian de Oliveira Castigio, 18, do curso
seqüencial em Gerência de Marketing e Vendas,
acha que essa será uma tendência cada vez
maior nos próximos anos, devido à necessidade
de constante atualização do profissional.
“Eu mesma não pretendo parar nunca de estudar.
Estar em contato com os mais experientes é muito
importante. Eles trazem um grande legado de informações,
mas são menos ousados que os mais jovens, por
isso um acaba completando o outro durante um trabalho,
por exemplo”.
Já Thalita Tavares, 24, do 3º ano de Jornalismo,
fala que é muito boa a troca de conhecimento
com quem já viveu mais. “Minha mãe
só terminou a faculdade depois dos quarenta.
Ela está muito feliz. Conseguiu um trabalho muito
melhor do que tinha e ganha muito mais”. Ela acrescenta
que cada um que tem o sonho de cursar uma faculdade
deve correr atrás seja na força da sua
juventude ou mesmo quando já estiver na maturidade.
“Não podemos deixar morrer os nossos sonhos
por causa da idade”.
E foi um sonho que trouxe Luiz Augusto Stesse, 50, de
volta à faculdade. Ele está no último
ano do curso de Jornalismo, já é graduado
em Direito, foi vereador, delegado de polícia
e agora está aposentado. Na infância, ele
ouvia sua mãe fazer a leitura dos jornais para
as amigas, que não sabiam ler. Assim ele foi
sendo atraído para os textos jornalísticos.
Stesse conta que sua vida sempre foi muito dura. De
família humilde, ele viveu até os 18 anos
no Educandário Quito Junqueira (fundação
que cuida de crianças abandonadas e também
daquelas que os pais não têm condições
de criar). Com muita luta, ele conseguiu estudar e agora
se considera um vencedor. “Acabei de lançar
o meu próprio jornal; quero fazer um jornalismo
sério e diferente”.
Uma outra história interessante é a da
professora do ensino básico, Leila Guerreiro
Pereira Rezende, 44, mãe de dois filhos: Willian,
22, que cursa faculdade e Larissa, 16, que está
no colegial. Ela está no terceiro ano do curso
de História e conta que escolheu este curso por
puro prazer. “Quando fizemos uma viagem de férias
ao exterior, fomos aos museus e notei que sabia muito
pouco da história, então resolvi estudar”.
No final do ano quando ela concluir os estudos seu filho
também terminará a graduação
em Jornalismo. Serão duas festas de formatura
na mesma casa.
Entre tantas histórias que poderiam ser contadas,
a que mais surpreende é a de Benedita Aparecida
Souza Sebastião, 71, que faz o curso de Fisioterapia
na Barão de Mauá. Ela está no segundo
ano e fala que o amor dos alunos mais novos por ela
é indescritível. “Eles me tratam
com tanto amor. Isso me da forças para ir em
frente”. A vovó Benedita, como é
chamada com carinho por seus colegas de classe, diz
ainda: “A faculdade hoje é a minha vida”.
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