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Michele Pieri
Viviane Gomide
O ciúme é
um sentimento de medo de que alguém possua algo
que julga pertencer. Segundo o psicólogo Odair
J. Comin, até certo grau, o ciúme pode
ser normal, pois “somos seres afetivos e carentes
de atenção, temos dificuldades de lidar
com a rejeição, com a troca ou algo que
fira nossos sentimentos, sejam eles quais forem”.
Para a terapeuta Marilandes Ribeiro Braga, o ciúme
é algo que vem de dentro da pessoa. É
um sentimento bem desagradável, que se liga à
baixa auto-estima e à insegurança. “Quando
a pessoa gosta de alguém ou de alguma coisa,
sente desejo de posse e isso induz ao ciúme.
Muitas vezes, o ciúme entre os pais pode levar
os filhos pelo mesmo caminho”, diz ela.
Marilandes afirma que um pouco de ciúme faz parte
de qualquer relacionamento amoroso, mas quando esse
sentimento se apossa do indivíduo, torna-se patológico,
doentio. “Talvez este seja o momento de buscar
ajuda de especialista da área, um psicoterapeuta,
pois não é muito fácil identificar
quando o ciúme passa do limite”, recomenda.
“Se analisarmos mais detalhadamente o ciúme,
podemos perceber, logo de início, que não
se trata de um sentimento voltado para o outro, mas
sim voltado para si mesmo, para quem o sente, pois é,
na verdade, o medo que alguém sente de perder
o outro ou sua exclusividade sobre ele. É um
sentimento egocentrado, que pode muito bem ser associado
à terrível sensação de ser
excluído de uma relação”,
diz Eduardo Ferreira-Santos, psicoterapeuta e psiquiatra.
Eduardo afirma que existem três tipos de ciúmes,
o normal, mais comum, é a pessoa sentir-se enciumada
em situações eventuais nas quais, de alguma
forma, se veja excluída ou ameaçada de
exclusão na relação com o outro.
Nesse caso, em que a pessoa é, supostamente saudável,
o sentir-se enciumado a leva a questionar-se sobre este
sentimento. Ela chega a compartilhar com o outro isso
e pode tirar algumas conclusões importantes sobre
sua forma de ser.
No segundo caso, a sensação permanente
de angústia e instabilidade, a insegurança
em relação a si mesmo e ao outro, além
da fragilidade da relação afetiva, podem
levar a pessoa a manter um permanente “estado
de tensão”, temendo ser traída ou
abandonada. “Qualquer sinal do outro pode significar
algo e a angústia da dúvida corrói
a alma de quem é ciumento. A pessoa pode até
não ter ciência deste seu sentimento, permanecer
em vigília o tempo todo, tensa, aflita, tomando
atitudes destemperadas, sempre procurando uma forma
de confirmar suas suspeitas. Isto pode ir de um sombrio
ato de vasculhar bolsas e bolsos, checar ligações
telefônicas e até seguir ou mandar seguir
o outro pelas ruas em busca de provas de sua infidelidade.
Suas reações no dia-a-dia são geralmente
agressivas, acusadoras, desconfiadas, causando um grande
mal-estar na relação”.
Em uma terceira situação, ainda mais grave
sob o ponto de vista de comprometimento do psiquismo,
podem ocorrer situações delirantes em
que a desconfiança do ciumento cede lugar a uma
certeza infundada de que está mesmo sendo traído
ou abandonado. “O chamado ciúme patológico,
também conhecido como ´Síndrome
de Otelo´, em referência ao personagem shakespeariano
que sofria deste mal, pode levar a pessoa a cometer
atos de extrema agressividade física, configurando
aqueles casos que recheiam as crônicas policiais
de suicídios e homicídios passionais”,
conclui Eduardo.
O tratamento do ciúme deve ser buscado na medida
em que trouxer sofrimento para a pessoa e a mesma não
conseguir lidar com a situação. A hipnose,
por exemplo, é usada tanto para diagnosticar,
como para descobrir de onde vem o ciúme, e buscar
um melhor entendimento, como o fortalecimento da auto-estima,
indica Odair.
A pessoa ciumenta, além de causar sofrimento,
também sofre muito com seu ciúme, tem
baixa auto-estima, é uma pessoa insegura e dependente,
deixa-se levar por sua imaginação, a qual
está sempre voltada para o negativo. “Já
vi uma infinidade de casos em que relacionamentos terminam
por causa de ciúme. E, pior ainda, esta pessoa
ciumenta, que causou o término deste relacionamento,
será mais ciumenta ainda depois disso, o que
gera um círculo vicioso sem fim, com um sofrimento
cada vez maior”, acrescenta a psicoterapeuta Olga
Inês Tessari.
“De qualquer forma, o complexo sentimento de ciúme,
longe de ser aquele condimento que torna a relação
amorosa mais apetitosa, é um sentimento que leva,
via de regra, ao sofrimento de quem o sente e, principalmente,
de quem padece nas mãos de um ciumento desconfiado
e agressivo”, finaliza Eduardo Ferreira.
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