Publicação Bimestral do Curso de Jornalismo do Centro Universitário Barão de Mauá

PÁGINA 2

Editorial

Há três anos o NAI realiza projetos de responsabilidade social

Expediente

COTIDIANO

Evento de conscientização sobre cidadania mobiliza estudantes e jovens

Enchente um problema urbanístico

O significado da Páscoa: ritos e lucros

ESPORTE

Lula Ferreira aposta na conquista do pan-americano

O lado triste do futebol pentacampeão do mundo

CIÊNCIA E TECNOLOGIA

TV digital corre o risco de não ter conteúdo por falta de profissional especializado

EDUCAÇÃO

Alunos de Jornalismo do Barão desenvolvem
projeto sobre a Casa das Mangueiras

Carlos Cezar Barbosa, um intelectual do direito

Especialização é moeda forte em mercado competitivo

CULTURA

Arte de grafitar:
da cultura hip-hop para as ruas

Dançarinos do Crazy Jam
participam de festival internacional

SAÚDE

Ausência de proteção solar aumenta casos de câncer de pele

Depressão é doença e requer respeito para tratamento

ECONOMIA

Brasil quer liderança em combustíveis renováveis

Bagaço da cana pode ser fonte elétrica do futuro

Gastos dos estudantes chegam
a 30 milhões de reais por mês

POLÍTICA

PAC lança medidas que beneficiarão população de baixa renda

ESPORTE

O lado triste do futebol pentacampeão do mundo

Nos últimos dez anos foram registradas 22 mortes de torcedores no futebol paulista

O vendedor, Daniel Rodrigo Marcolino, fica distante das torcidas organizadas quando vai ao estádio
Foto: André Marcolino

André R. Marcolino
Priscilla A. Fernandes
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Nos últimos tempos, a população tem se preocupado com a violência que toma conta do país. Nem o futebol que é a paixão nacional da maioria dos brasileiros fica de fora, a violência assola os grandes estádios do Brasil. O que poderia ser um momento de prazer e descontração no simples ato de torcer pelos times, tem sido palco de brigas entre torcidas e gangs uniformizadas, infiltradas nas torcidas organizadas.
A primeira morte de um torcedor dentro do estádio de futebol foi em 1992, Rodrigo de Gáspari de 13 anos, foi atingido por uma bomba de fabricação caseira, no jogo São Paulo e Corinthians, pela taça São Paulo de Juniores. Em 1995, houve a “batalha campal” entre torcedores são-paulinos e palmeirenses, enfurecidos se agrediram com paus e pedras dentro do estádio do Pacaembu. A briga resultou na morte do garoto Márcio Gasparim de 16 anos, após ser espancado a pauladas por “torcedores” do Palmeiras. Em maio de 2004 o corinthiano Marcos Gabriel de 16 anos, foi morto em mais um confronto entre torcidas organizadas, ele foi brutalmente espancado por palmeirenses na estação da Barra Funda do metrô, em São Paulo. Marcos nem sequer usava a camisa do Corinthians, apenas estava junto com um grupo de corinthianos, e se depararam com vários palmeirenses.
No Estado paulista foram registradas 22 mortes vítimas de agressões (dentro e fora do estádio) relacionadas com o futebol nos últimos dez anos. O Ministério Público tentou diminuir a violência proibindo a entrada de torcidas organizadas nos estádios, mas os resultados foram parciais. Em quase todos os clássicos a confrontos entre torcedores rivais, no último jogo entre Santos e São Paulo na Vila Belmiro, um vaso sanitário foi arremessado pela torcida santista em direção aos são-paulinos que estavam na parte debaixo da arquibancada, por sorte não atingiu ninguém.
A violência nos estádios de futebol assusta até mesmo no interior, em Ribeirão Preto no tradicional clássico Come-Fogo, realizado no dia 4 de fevereiro, houve briga, só que dessa vez não foi entre torcedores, e sim, entre um jogador e um gandula. A confusão aconteceu no final do segundo tempo, quando o goleiro do Botafogo Marcão se desentendeu com o gandula do Comercial Carlos Márcio dos Reis, por ele estar demorando em repor a bola em campo, “ele deixou a bola no pé da trave e eu fui lá e peguei dizendo para ele que não podia ficar ali. Aí ele me deu uma voadora e me jogou em cima de uma placa de publicidade,” contou o gandula.
O jogo estava sendo transmitido ao vivo para todo o Brasil, e as imagens da televisão mostraram só o momento do revide, em que o gandula pega uma barra de ferro de uma placa de publicidade e acerta as costas do goleiro Marcão, “fui agredido e para me defender peguei a barra. Eu não entrei no campo para bater nele. Foi ele quem saiu para me pegar e eu me defendi,” fala Carlos Márcio. Já Marcão disse que não deu uma voadora, apenas um encontrão, “não dei uma voadora nele, porque se tivesse feito muitos iriam ver e até a polícia teria visto. Eu dei um encontrão, um empurrão e vi ele caindo. Quando fui buscar a bola eu percebi que ele estava com a barra de ferro na mão,” afirmou o goleiro.
Sobre os machucados no gandula Marcão disse não saber de nada, “não sei pergunta para ele”. E se mostrou arrependido, “arrependo de ter ofendido ele, eu descumpri a regra porque minha função em campo é apenas de jogar”. Márcio disse que em dez anos de profissão foi seu primeiro incidente. “Sou pai de família e nunca nem bati na minha filha. Não aceitei que um jogador me batesse”, desabafou. No final da história o gandula Carlos Márcio dos Reis foi suspenso por dois anos.

Violência e Futebol não combinam
Toda essa violência faz com que cada vez menos torcedores compareçam ao estádio. O aposentado Luis Gusmão Mariolli, 66 anos, é um torcedor da época do romantismo do futebol, ele conta que nas décadas de 60 e 70 os jogadores vestiam a camisa, “naquele tempo o pessoal jogava com amor ao clube que defendia, o dinheiro não estava em primeiro lugar. O importante era ganhar de um time rival. Tinha muita rivalidade por causa disso”. Torcedor do Comercial, ele não perdia um jogo, “em 1966, os times de São Paulo jogavam aqui e não viam a cor da bola, era um espetáculo cada jogo, imperdível”.
Segundo ele, os estádios sempre estavam cheios, “Era bonito, se via muitas mulheres, crianças, o campo lotava e ainda ficava gente de fora. Não tinha briga, depois dos jogos o povo ia embora junto, sentavam na praça e ficavam horas conversando”. O aposentado diz que o futebol mudou muito, e por causa da violência deixou de ir aos estádios, “já faz mais de dez anos que não vou ao campo. Íamos eu, minha mulher e meus cinco filhos, era uma diversão, só que daqueles tempos pra cá, os times pioraram muito e a violência só aumentou, essa moçada só quer ir para usar droga e brigar. Se o time deles não ganhar é motivo para arrumarem confusão, o futebol perdeu a graça”.
Não são só os mais velhos que não vão mais aos estádios, a gerente comercial Carla Fernanda Bueno, 35 anos, é torcedora do Botafogo e sempre acompanhava o marido nos jogos, só que desde o nascimento do filho, não foi mais. A última partida que assistiu no estádio foi a final do Campeonato Paulista de 2001, entre Botafogo e Corinthians, ela diz que parou de ir por causa da violência, “Antes eu já tinha medo, só que depois que o Lucas nasceu, eu fiquei mais assustada. Vi vários confrontos entre torcedores pela televisão, brigas generalizadas, armados com paus e pedras, jogavam tudo o que viam pela frente. Os torcedores se transformam dentro de um estádio de futebol, eles ficam alucinados, enfrentam até a polícia. O meu marido às vezes vai ao campo, em jogos de uma torcida só, ele vai sempre sozinho, porque eu não tenho coragem para ir novamente”.
Já o vendedor Daniel Rodrigo Marcolino, 25 anos, vai sempre ao estádio, comercialino e corinthiano dificilmente perde um jogo, ele conta, que a violência assusta, mas a vontade de ver o futebol é maior. Por isso, toma alguns cuidados nas partidas que envolvem duas torcidas, “Em jogos como o Come-Fogo, e em partidas com os times grandes, eu não uso a camisa do meu time, para evitar confusão. E no estádio fico distante das torcidas organizadas, eles sempre se provocam. Assistir uma partida de futebol dentro do estádio é muito emocionante, e aqui em Ribeirão a violência é bem menor do que na Capital, não tem como deixar de ir ao campo”.
Segundo o psicólogo Samuel Gachet, é difícil apontar um único fator para as brigas nos estádios, “Uma rede de fatores sociais e culturais atuam sobre o comportamento humano e faz com que determinadas ações se repitam. No caso da violência entre as organizadas a identificação com o time é muito forte e o indivíduo acaba 'pegando' para si tanto as conquistas, como as derrotas de seu time, portanto quando o time vence, é o torcedor que também vence e quando o time é derrotado é o mesmo torcedor quem perde. Além disso alguns grupos vêm defendendo e proliferando a cultura de violência nos estádios e os membros da organizada acabam por digerir essa cultura e absorvem um conjunto de regras que se tornam parte de seu cotidiano, onde, por exemplo, todos aqueles que não pertencem ao seu grupo são inimigos. Desse modo os confrontos vão ganhando legitimidade e a vivência com os idéias e ideais do grupo vai ganhando força a cada reação do grupo rival”.
E sobre a mudança de comportamento dos torcedores que saem de casa tranqüilos e na chegada ao campo de futebol se transformam, são capazes de matar ou morrer pelo seu time, o psicólogo diz que, “as torcidas são como grandes famílias, onde todos são iguais. Dentro dos estádios quando o time conquista uma vitória todos comemoram juntos e quando o time sofre uma derrota todos são derrotados, desse modo quando um torcedor vê outro do mesmo grupo sendo agredido por um rival ele assume o papel de defensor do “brasão” e auxilia seu companheiro, formando um sistema que agrega cada vez mais adeptos. Durante seu cotidiano, o torcedor também assume outros papeis, como o trabalhador, o estudante, o pai de família... etc. Sendo que a agressividade se manifesta quando ocorre o encontro do grupo, ou seja em dias de jogos”.
Na opinião do psicólogo, a violência pode ser combatida com políticas públicas eficientes e investimentos na infra-estrutura dos estádios, “a violência nos estádios não pode ser vista como um fenômeno isolado, a violência no Brasil deve ser combatida de um modo geral com políticas públicas eficientes e garantia de direitos. Porém nesse caso específico, o trabalho deve fluir no sentido contrário das punições, o investimento deve ser feito em campanhas de sensibilização e paralelo a isso um aumento no investimento de infra-estrutura nos estádios e nas imediações, para de imediato impedir o confronto. Obviamente as sanções a quem participa e promove a violência também têm que ser aplicadas”.