| André
R. Marcolino
Priscilla A. Fernandes
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Nos últimos tempos,
a população tem se preocupado com a violência
que toma conta do país. Nem o futebol que é
a paixão nacional da maioria dos brasileiros
fica de fora, a violência assola os grandes estádios
do Brasil. O que poderia ser um momento de prazer e
descontração no simples ato de torcer
pelos times, tem sido palco de brigas entre torcidas
e gangs uniformizadas, infiltradas nas torcidas organizadas.
A primeira morte de um torcedor dentro do estádio
de futebol foi em 1992, Rodrigo de Gáspari de
13 anos, foi atingido por uma bomba de fabricação
caseira, no jogo São Paulo e Corinthians, pela
taça São Paulo de Juniores. Em 1995, houve
a “batalha campal” entre torcedores são-paulinos
e palmeirenses, enfurecidos se agrediram com paus e
pedras dentro do estádio do Pacaembu. A briga
resultou na morte do garoto Márcio Gasparim de
16 anos, após ser espancado a pauladas por “torcedores”
do Palmeiras. Em maio de 2004 o corinthiano Marcos Gabriel
de 16 anos, foi morto em mais um confronto entre torcidas
organizadas, ele foi brutalmente espancado por palmeirenses
na estação da Barra Funda do metrô,
em São Paulo. Marcos nem sequer usava a camisa
do Corinthians, apenas estava junto com um grupo de
corinthianos, e se depararam com vários palmeirenses.
No Estado paulista foram registradas 22 mortes vítimas
de agressões (dentro e fora do estádio)
relacionadas com o futebol nos últimos dez anos.
O Ministério Público tentou diminuir a
violência proibindo a entrada de torcidas organizadas
nos estádios, mas os resultados foram parciais.
Em quase todos os clássicos a confrontos entre
torcedores rivais, no último jogo entre Santos
e São Paulo na Vila Belmiro, um vaso sanitário
foi arremessado pela torcida santista em direção
aos são-paulinos que estavam na parte debaixo
da arquibancada, por sorte não atingiu ninguém.
A violência nos estádios de futebol assusta
até mesmo no interior, em Ribeirão Preto
no tradicional clássico Come-Fogo, realizado
no dia 4 de fevereiro, houve briga, só que dessa
vez não foi entre torcedores, e sim, entre um
jogador e um gandula. A confusão aconteceu no
final do segundo tempo, quando o goleiro do Botafogo
Marcão se desentendeu com o gandula do Comercial
Carlos Márcio dos Reis, por ele estar demorando
em repor a bola em campo, “ele deixou a bola no
pé da trave e eu fui lá e peguei dizendo
para ele que não podia ficar ali. Aí ele
me deu uma voadora e me jogou em cima de uma placa de
publicidade,” contou o gandula.
O jogo estava sendo transmitido ao vivo para todo o
Brasil, e as imagens da televisão mostraram só
o momento do revide, em que o gandula pega uma barra
de ferro de uma placa de publicidade e acerta as costas
do goleiro Marcão, “fui agredido e para
me defender peguei a barra. Eu não entrei no
campo para bater nele. Foi ele quem saiu para me pegar
e eu me defendi,” fala Carlos Márcio. Já
Marcão disse que não deu uma voadora,
apenas um encontrão, “não dei uma
voadora nele, porque se tivesse feito muitos iriam ver
e até a polícia teria visto. Eu dei um
encontrão, um empurrão e vi ele caindo.
Quando fui buscar a bola eu percebi que ele estava com
a barra de ferro na mão,” afirmou o goleiro.
Sobre os machucados no gandula Marcão disse não
saber de nada, “não sei pergunta para ele”.
E se mostrou arrependido, “arrependo de ter ofendido
ele, eu descumpri a regra porque minha função
em campo é apenas de jogar”. Márcio
disse que em dez anos de profissão foi seu primeiro
incidente. “Sou pai de família e nunca
nem bati na minha filha. Não aceitei que um jogador
me batesse”, desabafou. No final da história
o gandula Carlos Márcio dos Reis foi suspenso
por dois anos.
Violência e Futebol não combinam
Toda essa violência faz com que cada vez menos
torcedores compareçam ao estádio. O aposentado
Luis Gusmão Mariolli, 66 anos, é um torcedor
da época do romantismo do futebol, ele conta
que nas décadas de 60 e 70 os jogadores vestiam
a camisa, “naquele tempo o pessoal jogava com
amor ao clube que defendia, o dinheiro não estava
em primeiro lugar. O importante era ganhar de um time
rival. Tinha muita rivalidade por causa disso”.
Torcedor do Comercial, ele não perdia um jogo,
“em 1966, os times de São Paulo jogavam
aqui e não viam a cor da bola, era um espetáculo
cada jogo, imperdível”.
Segundo ele, os estádios sempre estavam cheios,
“Era bonito, se via muitas mulheres, crianças,
o campo lotava e ainda ficava gente de fora. Não
tinha briga, depois dos jogos o povo ia embora junto,
sentavam na praça e ficavam horas conversando”.
O aposentado diz que o futebol mudou muito, e por causa
da violência deixou de ir aos estádios,
“já faz mais de dez anos que não
vou ao campo. Íamos eu, minha mulher e meus cinco
filhos, era uma diversão, só que daqueles
tempos pra cá, os times pioraram muito e a violência
só aumentou, essa moçada só quer
ir para usar droga e brigar. Se o time deles não
ganhar é motivo para arrumarem confusão,
o futebol perdeu a graça”.
Não são só os mais velhos que não
vão mais aos estádios, a gerente comercial
Carla Fernanda Bueno, 35 anos, é torcedora do
Botafogo e sempre acompanhava o marido nos jogos, só
que desde o nascimento do filho, não foi mais.
A última partida que assistiu no estádio
foi a final do Campeonato Paulista de 2001, entre Botafogo
e Corinthians, ela diz que parou de ir por causa da
violência, “Antes eu já tinha medo,
só que depois que o Lucas nasceu, eu fiquei mais
assustada. Vi vários confrontos entre torcedores
pela televisão, brigas generalizadas, armados
com paus e pedras, jogavam tudo o que viam pela frente.
Os torcedores se transformam dentro de um estádio
de futebol, eles ficam alucinados, enfrentam até
a polícia. O meu marido às vezes vai ao
campo, em jogos de uma torcida só, ele vai sempre
sozinho, porque eu não tenho coragem para ir
novamente”.
Já o vendedor Daniel Rodrigo Marcolino, 25 anos,
vai sempre ao estádio, comercialino e corinthiano
dificilmente perde um jogo, ele conta, que a violência
assusta, mas a vontade de ver o futebol é maior.
Por isso, toma alguns cuidados nas partidas que envolvem
duas torcidas, “Em jogos como o Come-Fogo, e em
partidas com os times grandes, eu não uso a camisa
do meu time, para evitar confusão. E no estádio
fico distante das torcidas organizadas, eles sempre
se provocam. Assistir uma partida de futebol dentro
do estádio é muito emocionante, e aqui
em Ribeirão a violência é bem menor
do que na Capital, não tem como deixar de ir
ao campo”.
Segundo o psicólogo Samuel Gachet, é difícil
apontar um único fator para as brigas nos estádios,
“Uma rede de fatores sociais e culturais atuam
sobre o comportamento humano e faz com que determinadas
ações se repitam. No caso da violência
entre as organizadas a identificação com
o time é muito forte e o indivíduo acaba
'pegando' para si tanto as conquistas, como as derrotas
de seu time, portanto quando o time vence, é
o torcedor que também vence e quando o time é
derrotado é o mesmo torcedor quem perde. Além
disso alguns grupos vêm defendendo e proliferando
a cultura de violência nos estádios e os
membros da organizada acabam por digerir essa cultura
e absorvem um conjunto de regras que se tornam parte
de seu cotidiano, onde, por exemplo, todos aqueles que
não pertencem ao seu grupo são inimigos.
Desse modo os confrontos vão ganhando legitimidade
e a vivência com os idéias e ideais do
grupo vai ganhando força a cada reação
do grupo rival”.
E sobre a mudança de comportamento dos torcedores
que saem de casa tranqüilos e na chegada ao campo
de futebol se transformam, são capazes de matar
ou morrer pelo seu time, o psicólogo diz que,
“as torcidas são como grandes famílias,
onde todos são iguais. Dentro dos estádios
quando o time conquista uma vitória todos comemoram
juntos e quando o time sofre uma derrota todos são
derrotados, desse modo quando um torcedor vê outro
do mesmo grupo sendo agredido por um rival ele assume
o papel de defensor do “brasão” e
auxilia seu companheiro, formando um sistema que agrega
cada vez mais adeptos. Durante seu cotidiano, o torcedor
também assume outros papeis, como o trabalhador,
o estudante, o pai de família... etc. Sendo que
a agressividade se manifesta quando ocorre o encontro
do grupo, ou seja em dias de jogos”.
Na opinião do psicólogo, a violência
pode ser combatida com políticas públicas
eficientes e investimentos na infra-estrutura dos estádios,
“a violência nos estádios não
pode ser vista como um fenômeno isolado, a violência
no Brasil deve ser combatida de um modo geral com políticas
públicas eficientes e garantia de direitos. Porém
nesse caso específico, o trabalho deve fluir
no sentido contrário das punições,
o investimento deve ser feito em campanhas de sensibilização
e paralelo a isso um aumento no investimento de infra-estrutura
nos estádios e nas imediações,
para de imediato impedir o confronto. Obviamente as
sanções a quem participa e promove a violência
também têm que ser aplicadas”.
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