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O PROFISSIONAL DE ENFERMAGEM PERANTE UMA QUESTÃO DE SEXUALIDADE
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Anderson Cleyton Galante*
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RESUMO: Caracterizado por pesquisa bibliográfica com considerações pessoais, neste artigo fez-se alusão à trajetória histórica da homossexualidade com menção à sua inserção no código internacional de doenças. Relacionou o modelo científico biomédico compartimentado com o holístico. Fez referência ao comportamento de personagens históricos e suas obras. Contemplou a homossexualidade na abordagem e na prática do enfermeiro e culmina apontando a necessidade de que diagnósticos de enfermagem nessa temática sejam elaborados.
UNITERMOS: Sexualidade; Homossexualidade; Identidade Sexual.
Embora o homem clinicamente dividido seja o alvo de estudo das ciências médicas, ele, em suma, é um construto com suas partes em interação contínua, seus sistemas orgânicos se inter-relacionam e ao abordar a sua constituição neurológica não se pode esquecer do complexo renal que lhe garante as adequadas concentrações hidroeletrólicas e nem do seu conjunto psicoemocional.
A vigência da teoria holística favorece a contemplação integral do ser humano considerando-o no seu contexto sócio-econômico, familiar, cultural, religioso. Também deve ser aplicada ao se abordar a sexualidade humana em qualquer ramo de atividade ou em qualquer ação comportamental.
Desde os primórdios da humanidade a atração erótica entre pessoas do mesmo sexo é relatada em registros típicos de cada povo e a diversidade cultural norteava a aceitabilidade, a tolerância ou a inadmissibilidade.
SPENCER (1996) relata que na Pré-história, tribos da Nova Guiné e da Ilha de Melanésia praticavam a sodomia ritualizada.
Os Marinds ritualizavam a iniciação sexual dos meninos em frente a um gigante castrado no meio da floresta, onde homens mais velhos dançavam, e seguindo uma orgia masculina, penetravam seu pênis em qualquer menino; já os Nambas, na Ilha de Malekula, acreditavam que o cerimonial de iniciação fortalecia a glânde do iniciado.
Na tribo Sambia os seus habitantes reverenciavam o sêmem e aprendiam, durante a iniciação, a praticar a felação e criam que a penetração anal favorecia o crescimento do órgão sexual do iniciado e que a ejaculação no seu organismo o tornaria mais fértil.
Relata que na Mesopotâmia se um homem possuísse por trás, um igual a si, adquiriria proeminência social e aponta o Symposium de Platão como meio auxiliar para a compreensão do comportamento sexual na Grécia onde a prática sexual entre pessoas do mesmo sexo era considerada superior à entre os sexos opostos.
Afrodite é a inspiradora do amor comum que leva pessoas a buscar o sexo por atração pelo corpo sem diferenciar homens e mulheres.
Afrodite Urânia - daí a origem do termo uranita para designar aquele que mantinha relação sexual com outro biologicamente igual - é a deusa do amor considerado celestial; o indivíduo que o sente tem sensível exigência selecional, visa a educação e o bem-estar. Essa forma de amar é manifestada por jovens a pessoas mais nobres e do mesmo sexo que só se relacionavam depois de estarem convictos de que não só havia interesse no ato sexual, exigindo amplamente a fidelidade. Talvez tenha sido assim que viveram Zeus e Ganimedes, o mais famoso casal grego masculino (FRY & MacRAE, 1985 e SPENCER, 1996).
O relacionamento erótico entre duas mulheres foi denominado lesbianismo, por derivação de Lesbos, ilha grega onde vivia a poetisa Safo que liderava um grupo de mulheres e para elas poetisava, liricamente (HOMOSSEXUALISMO ..., 2000 e SAFO ..., 2000).
Até algum tempo depois do Renascimento o sodomita e a lésbica não eram considerados diferentes de qualquer outra pessoa. Por volta do ano 1700 houve uma radical mudança comportamental e a partir de então, ocorreu a generalização que todos os homens que faziam sexo com homens eram efeminados e que todas as mulheres que desejavam outras mulheres eram masculinizadas e agressivas; nascia, portanto, a sociedade que passou a não mais aceitar a relação amorosa entre pessoas do mesmo sexo (SPENCER, 1996).
Segundo FRY & MacRAE (1985), o termo homossexualidade surgiu, originalmente, em alemão, em um panfleto anônimo em 1869. Mais tarde Havelok Ellis disse que se tratava de um neologismo de etmologia grega e latina.
O homossexualismo foi considerado patologia e teve, no código internacional de doenças a classificação 302.0. Nesse ínterim, os homossexuais foram vitimizados pela doença "ignorância" e "preconceito" que lhes causaram grandes sofrimentos físicos e morais. Stalin ajudou a institucionalizar em seu país a lei que os punia com até oito anos de prisão, e no Brasil, militares os perseguiam, prendiam e massacravam em nome da boa moral (FRY & MacRAE, 1985).
Dizem que ser homossexual é uma opção. O termo optar é definido como ato de decidir por uma coisa ou outra, escolher (OPTAR ...,1998).
Freud explica tal prática sexual como fruto da má resolução dos conflitos no desenvolvimento psicossexual e é sabido que a medicina hipotetisou que diferenças genéticas e hormonais são as causas da atração por indivíduos com a mesma constituição física (D´ANDRÉA, 1972).
Como a causa da homossexualidade - se é que ela existe - é ainda desconhecida, pergunta-se: será que uma pessoa simplesmente opta por ser homossexual sabendo que terá de enfrentar rejeição, discriminação e diferenças sociais?
O psicólogo Cláudio Picazio acredita que são os mesmos os mistérios que envolvem a origem da hetero e da homossexualidade (A HOMOSSEXUALIDADE ..., 2001).
Em uma mesma sociedade os heterossexuais observam superficialmente o comportamento daqueles que não o são e os julgam, todavia, não contemplam o seu amargor e a sua angústia por terem que amar, muitas vezes, ocultamente.
A felicidade é monopólio dos heterossexuais? Para Tagore apud KÜBLER-ROSS (1996), o mundo é erroneamente interpretado e afirma-se que é ele que engana o homem.
A sociedade, antes completamente homofóbica, passou a ter indivíduos "ismofóbicos" que lutaram pelos direitos dos não heterossexuais, assim, em 1973 o homossexualismo deixou de ser classificado como doença pela
Associação Americana de Psiquiatria e, a partir de então, o termo homossexualidade substituiu aquele e a sua prática foi aceita como orientação afetivo-sexual (FRY & MacRAE, 1985).
Somente em 1985, o homossexualismo deixou de ser, no Brasil, apontado como enfermidade pelo Conselho Federal de Medicina, devido a insígne ação de Luiz Mott para reunir 16 mil assinaturas, destacando dentre elas as de Fernando H. Cardoso, Ulysses Guimarães e Mário Covas (BRANDÃO, 2001).
Considerando que a palavra "sexo" é referida ao ato biológico, ao "fazer sexo", ao termo "sexualidade" são acrescidos o impulso e a emoção que a relação pode proporcionar, bem como as forças culturais, políticas e sociais (CARIDADE, 1995).
Na atualidade a sexualidade humana é abordada dentro dos contextos biológico, de gênero, de papel sexual e orientação afetivo-sexual, concluindo-se que é um complexo intrínseco da personalidade sendo muito mais do que pênis-vagina, pênis-ânus ou
vulva-vulva.
Destarte, ao se contemplar biologicamente a sexualidade o ser é macho ou fêmea, é homem ou mulher frente a abordagem de gênero, quanto ao papel sexual é masculino ou feminino e no tocante à orientação afetivo-sexual é hetero, bi ou homossexual.**
O ser humano tende a ver o moral exclusivamente no comportamento sexual, esquecendo-se dos outros fatores que compõem a personalidade, chegando ao ponto de rejeitar uma obra pelo simples fato de o obreiro não ter o comportamento sexual que atenda às suas exigências.
Como descreveu PAPINI (1946), antes de ser um dos líderes da igreja, Santo Agostinho vivia, esporadicamente, relações sexuais com pessoas do mesmo sexo; POMPÉIA (1980) em "O Ateneu" grafou com tinta perene a sua trajetória e ANDRADE (1991) em "Contos Novos" manifestou de forma "oculta" os seus sentimentos.
O modo como esses personagens históricos viviam não diminui o valor de suas obras.
Tomás Antônio Gonzaga disse que a língua é o pior membro do corpo (VASCONCELLOS, 1987); sabe-se que ele e Marília viveram um grande amor. Sem a intenção de indiciar nele qualquer tendência homossexual indaga-se: o que não se falaria dele se fosse descoberto que, em suas cartas chilenas, ao invés de registrar os trâmites da inconfidência mineira, escrevia poemas de amor para um outro Dirceu?
MORAIS (2001) faz alusão a Edward Janes que, em 1798 efetivou a vacina contra a varíola. Lamentavelmente, séculos depois ninguém ainda descobriu a imunização contra o preconceito.
Avanço tecnológico, galáxias exploradas, profundezas oceânicas visitadas e ensaios de mudança comportamental.
Entre as décadas de 1950 e 1960 a idéia de que todo gay masculino tinha trajes feminis e que o gay feminino tinha trejeito masculinizado começou a perder a credibilidade (HOMOSSEXUALISMO..., 2000).
A homossexualidade tornou-se uma questão sócio-política e durante a década de 1990 os direitos civis ganharam espaço nos meios de comunicação de massa quando, em vários países, houve a disponibilidade para regulamentá-la (HOMOSSEXUALISMO..., 2000).
Devido a relevância dos fatos e considerando que o paradigma científico biomédico compartimentado perde campo para a ciência holística, os profissionais da enfermagem devem atentar para as questões que envolvem a sexualidade humana.
As práticas de saúde foram norteadas por periodização e transitórias embora, nas práticas instintivas, mágico-sacerdotais, no alvorecer da ciência, monástico-medievais, pós-monásticas e modernas a sexualidade não era abordada, nem mencionada a homossexualidade (GEOVANINI et al., 1995).
E como algumas etapas periodiciais da enfermagem antecederam a era Cristã, é pertinente indagar se não existiam "gays" a. C..
PELÁ et al. (1995) aludindo à história da enfermagem relatam que a assistência prestada aos enfermos era entendida como um serviço de abnegação, embora, paradoxalmente, praticada por prostitutas.
Frente a codificação moderna da enfermagem, elaborada por Nightingale, o enfoque precípuo foi direcionado para o ambiente, higiene, alimentação e sanitarismo (NIGHTINGALE, 1989).
Desde a chegada de D. João VI em terras brasileiras, as políticas de saúde pública oscilaram dubiamente entre prevencionista e curativista (COHN & ELIAS, 2001) e hoje, com o havido progresso cientificizador em todas as áreas do conhecimento, a sexualidade passou a ser enfocada e as suas variadas formas de expressão foram também estudadas por profissionais das ciências da saúde, permitindo-lhes atuar, junto aos clientes, na prevenção de conflitos oriundos da não aceitação da sua sexualidade e terapeuticamente com indivíduos com alteração quer da resposta fisiológica sexual, quer atividade psíquica.
A enfermagem do século nascituro não mais pode ser vista como profissão puritana, praticada por indivíduos abnegados.
Transposta a era em que a homossexualidade foi diagnosticada como doença e chegando à época contemporânea, contemplando o progresso científico havido na ciência enfermagem, nota-se que os enfermeiros não estão totalmente preparados para assistir o cliente enquanto ser sexualizado (PELÁ et al., 1995).
Os profissionais da enfermagem uma vez que têm de tocar nos genitais dos enfermos para a realização de procedimentos terapêuticos, podem se deparar com com situações fatídicas inibitórias e desconcertantes como ereção e assédio por parte dos pacientes (OLIVEIRA et al., 2000).
No relacionamento interpessoal enfermeiro-paciente, podem surgir fatos imprevistos que podem ou não ser constrangedores para ambos, como o sentimento de repulsa, por parte dos profissionais, ao terem que assistir a um cliente homossexual; ademais, embora sejam profissionais, são também seres sexuados dotados de bagagem cultural, sentimentos e preconceitos.
É importante inverter a situação e indagar: como se sente o paciente que recebe assistência de um profissional que não é heterossexual?
PELÁ et al. (1995) em "A sexualidade humana no contexto da enfermagem" apontam situações em que um paciente homossexual masculino tentou manipular o genital do profissional, e solicitados a relatar situações/comportamentos classificados como distúrbio sexual de clientes, os respondentes apontaram homossexualidade, travestismo e bissexualidade com maior freqüência.
Desta forma, observa-se que mesmo em dias atuais o preconceito está ainda imperando, evidenciando que a diversidade sexual não é totalmente aceita dentro do paradigma de orientação sexo-afetivo individual.
Compreendendo que o preconceito é um óbice para a aquisição de experiência e conhecimento e identificando a necessidade de vencer as suas próprias barreiras, o enfermeiro deve reavaliar a sua estrutura no tocante à diversidade sexual.
Segundo GALANTE (2000), é importante a ecletização do enfermeiro na paradigmatização das suas atividades, o que lhe permite identificar aspectos culturais, geográficos e psíquicos que influenciam o comportamento hominal.
A sexualidade, em suas variadas formas de expressão apresenta-se como um vasto campo para ser investigado, evidenciando a importância de se elaborar diagnósticos de enfermagem nessa temática para nortear a ação intelectuo-procedimental do enfermeiro no contexto nosocomial, na saúde coletiva, no campo pessoal.
Assim, sendo enriquecida com novas pesquisas, a enfermagem do século XXl será o que dela fizerem os seus profissionais.
ABSTRACT: This study is a bibliographical survey with personal considerations, referring to the historical evolution of homosexuality mentioning its inclusion in the international classification of diseases. Authors related the biomedical scientific and the holistic models, mentioning the behavior of important persons and their work. Therefore, homosexuality was contemplated considering nurses' approach and practice. Authors concluded pointing out the need of elaborating nursing diagnosis on this theme.
KEYWORDS: Sexuality; Homosexuality, Sexual Identity
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*Acadêmico do 4º ano de Enfermagem do Centro Universitário Barão de Mauá e pesquisador em Sexualidade Humana.
**Conteúdo obtido no curso de extensão universitária em Sexualidade Humana, ministrado pela Profª. Drª. Nilza Teresa Rotter Pelá.
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